Um cruzamento de dados dos diários oficiais do Executivo e do Legislativo fluminense revela que pelo menos 30 servidores demitidos da estrutura do governo estadual desde abril encontraram abrigo na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj). As novas contratações foram distribuídas entre postos administrativos da Casa e gabinetes de 13 deputados estaduais, a maioria aliada do ex-governador Cláudio Castro.
O levantamento desconsidera servidores de equipes fixas de ex-secretários que apenas retornaram aos seus mandatos parlamentares na Alerj. Em alguns casos, a nomeação no Legislativo ocorreu no dia seguinte à demissão no Palácio Guanabara.
Dos 30 funcionários realocados, 13 assumiram funções no núcleo administrativo da própria Alerj, como a assessoria especial de plenário, assistência da presidência, subsecretaria da escola do legislativo, além de setores de legislação pessoal e planejamento orçamentário.
Os salários nestes cargos na Alerj variam de R$ 1.500 a R$ 8.800, conforme a folha de pagamento de maio.
Entre os parlamentares que abrigaram os ex-servidores do governo estão deputados que reassumiram mandatos recentemente, como Bruno Dauaire (União Brasil), Gustavo Tutuca (PP), Anderson Moraes (PL) e Douglas Ruas (PL), atual presidente da Alerj.
Também fizeram nomeações os gabinetes de:
Dionísio Lins (PP) e Vitor Junior (PDT);
Carlos Augusto, Renan Jordy, Giselle Monteiro e Rodrigo Amorim (todos do PL);
Filipe Soares e Pedro Brazão (ambos do PSDB);
Sarah Poncio (Solidariedade).
Desde 23 de abril, quando o STF ratificou sua permanência no cargo, o governador interino e presidente do Tribunal de Justiça, Ricardo Couto, exonerou 3.920 funcionários comissionados. Couto estima que os cortes vão gerar uma economia de R$ 230 milhões até o fim do ano e sinalizou que novas demissões devem ocorrer conforme auditorias internas avancem. Até fevereiro, o Rio possuía mais de 15 mil cargos comissionados ativos, gerando um custo mensal de R$ 75,9 milhões.
O governo interino não comentou as nomeações feitas pela Alerj. Recentemente, Couto afirmou publicamente que o Executivo sofria uma "captura" por parte de deputados que pressionavam por secretarias, reforçando que sua meta é técnica e financeira, e não política. Em agenda recente, o presidente Lula respaldou a atuação de Couto, referindo-se a ele como um "interventor" com a missão de sanar as contas e combater a corrupção.
A permanência de um magistrado no comando do estado é vista por aliados do presidente da Alerj, Douglas Ruas, como uma intervenção branca do STF. Ruas tentou assumir o governo por duas vezes, mas teve os pedidos negados pelo Supremo.
A crise institucional decorre de uma dupla vacância no poder:
Março de 2026: Cláudio Castro renunciou ao cargo pouco antes de ser declarado inelegível pelo TSE;
2025: O vice-governador Thiago Pampolha já havia renunciado para assumir uma vaga no Tribunal de Contas do Estado (TCE);
Dezembro de 2025: Rodrigo Bacellar, então presidente da Alerj e próximo na linha sucessória, foi afastado pelo STF devido a investigações sobre suposta ligação com uma facção criminosa.
O STF ainda decide se o novo governador-tampão, que comandará o estado até o fim do ano, será escolhido por voto popular (eleição direta) ou pelos próprios deputados (eleição indireta). O julgamento está suspenso após pedido de vista do ministro Flávio Dino.
